Meu amigo bugueiro

Como já escrevi por aqui, Jericoacoara é uma cidade de areia, portanto, extremamente difícil para se locomomover com cadeira de rodas. Uma das poucas opções (para cadeirante e andante) para se locomover com conforto pela cidade, principalmente em locais mais afastados e passeios, é com bugues.

A cidade possui vários bugueiros que cobrar uma taxa diária e assim se deslocam com os passageiros para onde estes desejarem. Porém, no meu caso, quase nenhum bugueiro aceitou me transportar.

Obviamente, eles nunca haviam transportado um cadeirante, o que naturalmente gerou um estranhamento, mas nitidamente se via uma má vontade deles em relação a mim. O argumento padrão é que a cadeira de rodas ocuparia boa parte do assento do bugue então não seria viável para eles me transportarem. Inclusive cheguei ouvir a épica frase:

“Mas a cadeira precisa ir mesmo?”

Enfim, mas como se existem boas exceções no mundo, nosso amigo Carlão nos apresentou um amigo dele, o Vagner que era bugueiro e estava disposto a me transportar nos dias que eu ficasse por lá.

Mas o Vagner (que prefere ser chamado de Azafama, não me perguntem a razão), não foi apenas nosso bugueiro, foi um grande amigo que fizemos.

Com seus dreadlooks e seu jeito inquieto que falava sem parar e que a cada 10 palavras pronunciadas, 5 eram “kyte surf” (esporte da região e sua paixão), o “Aza” sempre muito simpático, prestativo, e buscando nos divertir e agradar.

Por incrível que pareça, eu fiquei confortável no seu bugue vinho e a cadeira foi ajeitada como se o veículo de alguma forma fosse acessível. Ele não só nos transportava, mas guiava e auxiliava. Nitidamente, mais que um serviço prestado, ele estava se divertindo tanto quanto nós!

Ele simpatizou tanto conosco que mesmo nos conhecendo a poucos dias, ao saber que iamos passar por Ilhéus, disse para ficarmos hospedados na casa da sua mãe que mora lá. De fato ficamos mesmo, isso será um próximo texto.

Após voltar pra São Paulo, recebi a seguinte mensagem do “Aza”: “ Qualquer hora vou te visitar de bugueira aí em Sampa”. Em se tratando dessa figura, não dúvido.

Paulo Fabião

Paulo Fabião, 27 anos, é jornalista, sambista, cadeirante, poeta, contista, cronista, compositor, lutador, farofeiro, cafajeste acessível, e traz o amor verdadeiro em três dias! Limão, gelo, fogo e açúcar na medida certa!

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